17/07/2026 às 08:52 Fotojornalismo

A FORMAÇÃO NUNCA TERMINA: POR QUE UM FOTOJORNALISTA PRECISA ESTAR EM CONSTANTE EVOLUÇÃO

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5min de leitura

Por Marcio Curvello

Este artigo nasceu durante meus estudos na pós-graduação em Fotojornalismo da Faculdade Unyleya. Ao longo das leituras e discussões da disciplina Fotojornalismo e Produção de Imagens, percebi o quanto a teoria dialoga com aquilo que vivencio diariamente nas ruas, em coberturas jornalísticas e no desenvolvimento de projetos fotográficos. Mais do que um texto acadêmico, esta é uma reflexão pessoal sobre uma convicção que se fortalece a cada novo trabalho: um fotojornalista nunca termina sua formação.

Vivemos uma época marcada por uma contradição interessante. Nunca se produziram tantas fotografias e, ao mesmo tempo, nunca foi tão difícil criar imagens que realmente permaneçam relevantes.

Todos os dias, milhões de fotografias são publicadas nas redes sociais. A informação circula em tempo real, as transmissões ao vivo acontecem de qualquer lugar do planeta e um simples telefone celular é capaz de registrar acontecimentos históricos. Em meio a essa avalanche de imagens, gosto de fazer uma pergunta: o que diferencia uma fotografia comum de uma fotografia que realmente faz jornalismo?

Na minha opinião, a resposta não está na câmera utilizada, mas no olhar de quem fotografa.

Esse olhar não nasce pronto. Ele é construído ao longo de toda uma vida de observação, estudo, prática, sensibilidade e compromisso com a informação.

O fotojornalismo sempre foi uma escola permanente

Ao estudar a história do fotojornalismo brasileiro, fica evidente que os grandes profissionais aprenderam muito mais na prática do que dentro de uma sala de aula.

Durante boa parte do século XX, praticamente não existiam cursos específicos de fotografia jornalística. Muitos fotógrafos chegaram às redações vindos da arquitetura, das artes plásticas, do desenho ou simplesmente descobriram sua vocação no exercício diário da profissão.

As redações funcionavam como verdadeiras escolas.

Era acompanhando fotógrafos mais experientes, participando das reuniões de pauta, viajando para grandes reportagens e convivendo diariamente com jornalistas que se construía a formação profissional.

Mesmo hoje, quando existem graduações, especializações e cursos voltados ao fotojornalismo, continuo acreditando que nenhuma instituição substitui aquilo que aprendemos em campo.

Cada cobertura nos ensina algo novo.

Cada personagem amplia nossa percepção sobre a sociedade.

Cada fotografia nos torna um profissional melhor.

As grandes revistas ensinaram uma geração inteira

Sempre que penso na evolução do fotojornalismo brasileiro, lembro imediatamente das revistas O Cruzeiro e Realidade.

Essas publicações transformaram completamente a maneira de contar histórias no Brasil.

Pela primeira vez, a fotografia deixava de ser apenas uma ilustração para assumir o protagonismo das reportagens.

Fotógrafos passaram a participar da construção das pautas, sugeriam temas, viajavam pelo país durante semanas e tinham liberdade para desenvolver ensaios fotográficos profundos.

Foi um período que dificilmente voltará a existir.

Havia investimento, tempo e confiança no olhar do fotógrafo.

Na minha visão, boa parte do fotojornalismo contemporâneo ainda bebe dessa fonte.

A reportagem Amazônia continua inspirando fotógrafos

Entre todos os exemplos estudados durante a disciplina, um me chamou particularmente a atenção: a edição especial da revista Realidade, publicada em outubro de 1971 e dedicada integralmente à Amazônia.

Mais do que uma reportagem, aquele trabalho foi uma verdadeira expedição jornalística.

Foram meses de planejamento.

Milhares de quilômetros percorridos.

Dezenas de profissionais envolvidos.

Fotógrafos como Cláudia Andujar, Maureen Bisilliat, George Love, Jean Solari e Amâncio Chiodi produziram um dos maiores documentos fotográficos já publicados pela imprensa brasileira.

Passados mais de cinquenta anos, aquelas imagens continuam emocionando leitores e pesquisadores.

Isso me leva a outra reflexão importante.

Boas fotografias exigem tempo.

Exigem pesquisa.

Exigem permanência.

Sobretudo, exigem envolvimento com a história que está sendo contada.

A tecnologia mudou. A essência permanece.

Hoje fotografamos com equipamentos que os pioneiros do fotojornalismo jamais imaginaram.

Smartphones produzem imagens em alta resolução.

Drones revelam perspectivas inéditas.

Softwares organizam arquivos em segundos.

A inteligência artificial começa a fazer parte da rotina das redações.

Nada disso, entretanto, substitui aquilo que considero essencial na profissão.

É o fotógrafo quem identifica a pauta.

É o fotógrafo quem percebe a emoção.

É o fotógrafo quem entende o contexto.

É o fotógrafo quem decide o instante exato do clique.

Ferramentas evoluem.

O compromisso com a verdade continua exatamente o mesmo.

O projeto autoral transforma o fotógrafo

Uma das ideias que mais reforçaram minhas convicções durante os estudos foi a importância da produção autoral.

Acredito que todo fotojornalista deveria manter um projeto paralelo às pautas cotidianas.

Projetos documentais permitem aprofundar temas sociais, culturais, ambientais ou históricos sem a pressão do fechamento de uma edição.

Foi justamente dessa forma que muitos dos maiores fotógrafos brasileiros construíram suas carreiras.

Ao acompanhar um assunto durante meses ou anos, deixamos de registrar acontecimentos isolados para construir memória.

É nesse processo que nasce uma linguagem própria.

É nesse processo que amadurece o olhar.

Aprender nunca deixa de fazer parte da profissão

Ao longo da minha trajetória, percebi que estudar não é uma obrigação.

É uma necessidade.

Participar de workshops, festivais, encontros de fotografia, leituras de portfólio, concursos e cursos de especialização amplia muito mais do que o conhecimento técnico.

Essas experiências ampliam nossa visão de mundo.

Aprendemos observando o trabalho dos outros.

Recebemos críticas.

Questionamos certezas.

Descobrimos novas linguagens.

É exatamente esse movimento que mantém o fotojornalismo vivo.

Muito além das universidades

Embora as universidades desempenhem um papel importante, acredito que algumas das iniciativas mais transformadoras da fotografia brasileira surgiram fora do ambiente acadêmico.

A Escola de Fotógrafos Populares, criada por João Roberto Ripper e Dante Gastaldoni, na Maré, representa um excelente exemplo de democratização da fotografia.

Ao formar fotógrafos dentro das comunidades, o projeto rompeu com uma lógica histórica em que apenas quem vinha de fora registrava esses territórios.

Outro exemplo igualmente importante é o Vídeo nas Aldeias, idealizado por Vincent Carelli, que fortaleceu o protagonismo audiovisual dos povos indígenas brasileiros.

Essas iniciativas mostram que ensinar fotografia também significa ampliar representatividade.

Fotografar é revelar quem somos

Existe uma frase atribuída ao fotojornalista José Medeiros que considero uma das mais belas definições da profissão.

"Você fotografa o que vê, mas vê o que você é."

Quanto mais reflito sobre essa frase, mais ela faz sentido.

Toda fotografia revela muito mais do que o assunto fotografado.

Ela revela quem estava atrás da câmera.

Mostra nossos interesses.

Nossa cultura.

Nossa formação.

Nossos valores.

Talvez seja por isso que acredito tanto na formação permanente.

Quanto maior nosso repertório, mais profundas serão nossas fotografias.

Considerações finais

Durante meus estudos, uma ideia permaneceu presente em praticamente todas as leituras: o fotojornalista nunca deixa de aprender.

Essa afirmação dialoga profundamente com aquilo que procuro viver diariamente.

Continuo estudando porque quero compreender melhor a fotografia, em especial a fotografia jornalística e a documental.

Continuo fotografando porque acredito que as imagens ainda possuem enorme capacidade de informar, emocionar e preservar a memória da sociedade.

Continuo pesquisando porque cada novo conhecimento amplia meu olhar sobre o mundo.

Em tempos de excesso de imagens, talvez o maior desafio do fotojornalista não seja produzir mais fotografias.

Seja produzir imagens que continuem fazendo sentido daqui a vinte, cinquenta ou cem anos.

É essa busca que torna o fotojornalismo uma profissão fascinante.

E é justamente essa busca que me motiva a continuar aprendendo todos os dias.


17 Jul 2026

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